quinta-feira, 19 de abril de 2012

OREMO

Remo é morre de trás pra frente
imprecisão de viver
nascemos navegando
força na vela
a rosa dos ventos desabrochando
e vamos
e vamos
que vamos
avançando
um motor na popa
à deriva, um colete
sempre ao sabor das ondas

quinta-feira, 22 de março de 2012

AQUELE POEMA POPULAR AO CONTRÁRIO

No primeiro dia eles veem
constroem uma escola superfaturada
com tijolos e argamassa
da pior qualidade
Você vê calado

No segundo dia
desviam o curso do rio
e a barragem invade ocas
e as cidades
quando são abertas as comportas
e com a boca cheia d'água
Você não pode dizer nada

No terceiro dia constroem automóveis
vendem para vocẽ o conforto
o trânsito pára
você vai assistir ao jogo mundial
e gritando gol
você só diz gol

No quarto dia
satélites fotografam sua rua
um estranho amigo aparece para solicitar
que você repare a presença comercial
ao lado de suas postagens na rede
e você tem tempo apenas para olhar
mas para dizer nada

No quinto dia
as câmeras estão instaladas
sob seus pés as cobranças de multas
o imposto sem retorno
e você apela
numa demanda interminável
que te vence pela espera

Mas as flores estão plantadas
Ninguém pisou o seu jardim
Nada foi destruído, ao contrário
Você agora dorme tranquilo
Pois os invasores desenvolveram
novos métodos

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A LENTE DA RESOLUÇÃO

QUALQUER DIA DESSES
COM A MELHORA DA RESOLÇÃO
AS LENTES VÃO REVELAR
A TERRA, UMA BOLHA DE SABÃO

BOLHA DE SABÃO NO ESPAÇO
FURTACOR QUE NEM ELAS SÃO
A TERRA, A RESOLUÇÃO
O ENIGMA DO UNIVERSO

A ILUSÃO DA BOLHA DE SABÃO
O PENSAMENTO, O CORAÇÃO
A TERRA NA IMENSIDÃO
TODOS OS HOMENS QUE VIREM, VERÃO

A TERRA, COM A RESOLUÇÃO
UMA BOLHA DE SABÃO,
FURTACOR

domingo, 4 de setembro de 2011

Elvira (para Elvira Vigna)

Elvira vinha
Elvira ia
Eu vira tudo
com esses olhos
que a terra
ensinou a ler

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

BUZIOS

OS BUZIOS
DO MAR FUNDO
SÃO MAPAS
DO OUTRO MUNDO

sexta-feira, 27 de maio de 2011

FOMENTADOR

Criar Usinas Nucleares
Criar pastagens
Soja transgênica
Fortalecer o agro-negócio
Extrair petróleo do pre-sal
Construir hidrelétricas na Patagônia
Minas de carvão e diamantes
Transferir indústrias para navios em águas chinesas
Entupir a mídia com filmes de violência
Exportar silício em sucata
Ser abençoado pelo césio

Explodir o muro e a ideologia da paz
E fazer muito mais:
Os fomentadores
Os fomentadores do lucro

sábado, 1 de janeiro de 2011

O PATINHO CISNE

Houve o tempo em que os animais falavam menos que hoje como homens. Naquela ocasião, aconteceu um dia de uma patinha chocar três ovos. Deles saíram três patinhos.
Patinhos, como se sabe, aprendem rápido a andar e nadar. Assim, logo logo já seguiam a mãe pelo bosque onde viviam, e nadavam lindos todos no lago.
Um dos patinhos no entanto, era diferente.Nadava com as asinhas de um jeito que fazia com que a pata estranhasse sua aprendizagem e a confundisse, às vezes, com alguma inabilidade.
Pois bem, assim que os patinhos cresceram um pouco, a pata considerou levá-los para um exame de saúde. O posto de Serviço Patológico Nacional ficava do outro lado do lago; era autarquia do governo e funcionava bem como sempre quando se trata de atender aos cidadãos que dela tem necessidade.
Por precaução, decidiu levar os dois patinhos de nado sincronizado e deixar o outro para o ano seguinte, quando mais velho estaria em melhores condições para um nado de fôlego como aquele.
Preparou o ninho para o filhote, deixou instruções, indicou as comidinhas, transmitiu cuidados e partiu com os outros dois.
No Sepana as coisas demoraram...e demoraram...e preenche requerimento, e aguarda fila, e agenda por isso e por aquilo. Três longos dias se passaram.
A pata preocupada não conseguia comunicar-se com o filhote do outro lado, para dizer-lhe ao menos "meu filho, mamãe está bem, te ama, voltará logo, cuide-se".
E do outro lado o bichinho preocupado, abandonado, crescia, pois tres dias eram muito tempo para seu metabolismo.
Enfim, a pata chegou. Ao avistar a casa, deu de olhos naquele pato pescossudo, forte e grandalhão, com ares de dono do terreno.
Por Deus do céu! A primeira idéia foi que aquele emplumado atacara seu filho, comera-o e agora se abancava. Preferiu averiguar. Junto com os dois patinhos, escondeu-se atrás de uma moita e ficou espiando o bicho.
O bicho, por sua vez, já por demais preocupado com a ausência paterna - que seria materna se fosse filho da mata - resolveu entrar no lago e ir a procura da pata e dos irmãos.
Nadava maravilhosamente; sua elegância, a graça, causaram espanto e aumentaram a desconfiança parental. A pata pensou: "quem será este que não reconheço?", um patinho pensou "que nado lindo, diferente do de meu irmão"; e o outro: "esse bicho tem um quê de pato, mas é outro tipo". (Continua no próximo episódio)